Tatuagens: como responder às perguntas cliché

24 março, 2017


Eu gosto de tatuagens, gosto de pessoas tatuadas e gosto de ouvir quem não gosta de nenhuma das coisas. Continua, no entanto, a fazer-me confusão, como é que uma decisão tão pessoal e com tão pouca ou nenhuma influência para os demais, pode ser tão criticada ou considerada ofensiva para alguém? Posso não gostar de caveiras ( que adoro, btw!), pin-ups, tribais ou o que seja, mas olho para todas as tatuagens como aquilo que são – expressão do individuo ao mais alto nível. Um pensamento, um sentimento, um impulso capturados para sempre por um artista. Simples e bonito e sem nada de criticável.  

Sabes que isso é para sempre, não sabes?

Sei e é precisamente por isso que o faço. Aliás, nesta vida tudo é efémero, até a dita cuja, portanto se a tatuagem dura “para sempre” espero que fique por aí a pulular no éter quando eu me for. Seria um éter bastante animado.

Não te vais arrepender?

Não adivinho o futuro mas, como em qualquer outra decisão que tomo na vida, o arrependimento é um sentimento passível de surgir. Todas as minhas tatuagens significaram algo específico na época em que as fiz, quase como quando escrevemos algo no diário e de vez em quando vamos lê-lo para revisitar esse momento, seja ele bom ou mau. O mesmo acontece com a arte inscrita na pele.

Qual é o significado das tuas tatuagens?

Talvez o mesmo significado que os teus cortes de cabelo, a escolha dessas calças justas ou desses pendentes que tens nas orelhas. As minhas tatuagens significam mil coisas. A frase das costas faz parte da letra da minha música favorita. A flor de lótus simboliza o momento em que vi, pela primeira vez, uma árvore de lótus em Bali e o que toda essa viagem foi para mim. As ondas hertzianas copiadas da capa do disco AM dos Arctic Monkeys demonstram a minha paixão pela rádio e a música em geral. O foguetão no tornozelo ajuda-me a levantar voo quando, estupidamente, insisto em jogar pelo seguro e a caveira sou eu, a minha maturidade e a minha mortalidade e, ao dividi-la com o Mário, é ao mesmo tempo o momento em que decidimos assumir o compromisso de ficarmos juntos para sempre e até aos ossos.

E quando fores velha?

Serei velha. Mas serei uma velha cheia de recordações em mim. Com a minha história contada no corpo. A flor acima do cotovelo vai engelhar e a letra da música vai ficando cada vez menos perceptível mas isso é só o tempo a fazer o seu trabalho. Não vale a pena incomodá-lo com perguntas estúpidas.

Ainda vais fazer mais tatuagens?

Quantas mais eu quiser e assim me dê a vontade. Algumas serão por impulso, outras menos bonitas, vão ser caras e vão doer. Mas vão ser o que eu quero para mim. Haverá liberdade maior?

Só para esclarecer os mais céticos, as tatuagens não me tornaram irresponsável ou mais leviana. Não significam que eu vá andar por aí a roubar ou que o meu trabalho seja mal feito. Descrevem um gosto pessoal e fazem parte de um estilo de vida. As tatuagens​ foram um compromisso que assumi com o meu corpo e não definem a minha personalidade, só é pena que o mesmo não se possa dizer do preconceito de quem as julga.