Vamos falar de amamentação - outra vez!

A minha história e a da Catarina

27 outubro, 2017


Queremos sempre o melhor para os nossos filhos, dizem. É verdade. No entanto, desde que fui mãe e me tornei mais observadora do que o habitual, tenho percebido que, muitas vezes, ao querermos o melhor para os nossos filhos, esquecemo-nos daquilo que pode ser também melhor para nós, pais. Amigas minhas que têm bebés a comer comida sólida, têm imenso cuidado para que tudo seja biológico, natural, sem químicos ou aditivos esquisitos. Porque é que não temos também essa preocupação com a nossa comida, primeiro do que tudo? Mais uma vez dizem que é através do exemplo que se ensina e a mim parece-me que de nada vale comermos comida processada em frente a uma criança para depois a obrigar a comer bróculos do quintal da avó. Pego neste exemplo para vos falar da amamentação. Não sou fundamentalista nem julgo quem, por opção, decide não o fazer, ate porque acredito sempre que o faça por um bom motivo. Digo sempre que mais vale um bom biberão do que uma mãe desesperada a amamentar. As hormonas do stress inibem a produção do leite!

Tenho recebido imensas mensagens de grávidas recém-mamãs a querer que eu fale da minha experiência. Umas contam-me os traumas porque passaram, outras vivem com medo de não conseguir amamentar quando for a altura. Esta é a história da Catarina:

Por volta dos 15 dias após o parto tive uma mastite terrível.  O leite empedrou nas duas mamas de tal maneira que nem com a bomba conseguia tirar. Já tinha fissuras desde o segundo dia na maternidade e todas as enfermeiras foram super atenciosas comigo . Uma enfermeira disse-me a certa altura que o melhor para recuperar seria dar descanso aos mamilos durante uma noite. Entretanto as enfermeiras mudam e a que apanhei no turno seguinte já não era da mesma opinião. Quando lhe disse que já não estava a aguentar ela só me respondeu: "E então, o que quer fazer agora?". Na manhã seguinte uma outra enfermeira disse-me que muitas vezes as colegas que ainda não foram mães não sabem o que realmente nos dói quando nos queixamos. Isto tudo para dizer que até essa altura já não estava a ser nada fácil, mas depois disso não consegui mais. Tomei antibiótico e sequei o leite. Basicamente os mamilos nunca melhoraram, pioraram bastante. E a mastite desenvolve-se porque as fissuras são uma porta aberta para a proliferação de bactérias. Eu fiz de tudo, experimentei as compressas de hidrogel da Medela, as compressas da multi mum, utilizava as conchas, raramente usei discos pelo risco de criar um ambiente húmido. Usei o Purelan, depois mudei para o Bepanthene porque me disseram que seria melhor para cicatrizar. Em casa andava sempre com as mamas ao ar para respirarem e tentei sempre corrigir a pega em cada mamada. Na verdade, Não tive propriamente nenhuma abordagem que pudesse levar a esta situação.

Na mastite comecei por notar uma das mamas mais duras, depois reparei nas manchas avermelhadas que surgem e depois, numa noite, vieram todos os sintomas: febre, mau estar, arrepios, parecia uma autêntica gripe. As mamas estavam em pedra ao ponto de ter que dormir semi-sentada pois era impossível virar-me na cama. Tinha que agarrar o meu filho em suspensão nos braços, não conseguia encostar ao peito por mais leve que fosse o toque. Também não conseguia sequer que o leite fluísse na bomba porque não havia tecido mole, a mama era uma pedra e o mamilo estava reto. Tomar conta de um recém-nascido já não é fácil, debilitada então nem se fala. Tive mesmo muita pena, sou farmacêutica e sei perfeitamente todos os benefícios da amamentação, mas foi uma experiência tão traumática que só de pensar em amamentar um próximo filho fico com receio.

Comigo a amamentação é uma história bonita porque correu bem desde o início. Toda a gente dizia que era das coisas mais difíceis do pós-parto e eu assumi que ia sofrer. Sofri por antecipação e desnecessariamente. O bebé pegou sempre bem, o que me facilitou a mim o trabalho. Como qualquer mãe tive a temível subida do leite numa noite em que o bebé mamou tanto que, pela manhã, as maminhas já tinham deixado de ser pedra e restavam apenas os mamilos doridos. O Purelan tem sido o meu melhor amigo desde então, ajudou-me a curar as gretas iniciais - isso e as massagens circulares com algodão embebido em água quente -  e agora uso todos os dias depois do banho para hidratar.  Nunca tive dores ao ponto de chorar, nem febre, nem dificuldade em amamentar mas só soube que ia ser assim depois de passar pela experiência, por isso, o melhor conselho que posso dar é: não pensem muito nos problemas antes de se depararem com eles. Se querem mesmo amamentar o vosso bebé há inúmeras coisas que podem fazer antes de desistirem: as enfermeiras no centro de saúde ajudam a perceber se estamos a fazer tudo bem e como melhorar as técnicas de amamentação e também existem em vários centros as conselheiras de amamentação, mais especialistas no tema do que ninguém. Podem saber mais aqui e aqui.

Outras dicas sobre amamentação:

- Sento-me sempre num sítio confortável e sossegado e desfruto do momento. Aproveito normalmente para meditar um bocadinho. Outras vezes ponho música a tocar e ele adora. Se o noto mais inquieto levanto-me e dou mama de pé enquanto passeio pela casa.

- Nunca me fez confusão amamentar em público ou com as visitas por perto mas se isso vos faz confusão não se sintam culpadas por pedir à visita para sair ou,  no caso de estarem num local pública, usar uma fralda ou avental de amamentação para estarem mais resguardadas. Já sabem, tudo pelo vosso bem-estar. Não queremos leite de mães stressadas.

- Amamentar é um ato natural mas nem a mãe nem o bebé nascem ensinados. Aos poucos vão percebendo qual a posição que o bebé mais gosta de adotar no momento e também aquela que vos deixa mais confortáveis. Tudo com muuuita calma.

 - Por último, pedir ajuda profissional sempre que necessário. Lá por amamentar muito bem há dois meses não quer dizer que daqui a dois dias não tenha uma mastite ou outro problema qualquer. É sempre bom saber que existem pessoas especialistas prontas a ajudar.

Verdade seja dita, por aqui o meu medo agora é começar a tirar leite para poder sair de casa sem ele se for preciso. Para já temos ido juntos a todo o lado-  o Eusébio é o meu mais recente BFF - mas em breve vou precisar de o fazer. E se ele não pegar no biberão? E se não conseguir tirar leite suficiente entre mamadas para deixar de reserva? Quem já passou pela experiência, alguma dica importante que me possa dar? Obrigada!