6 livros para oferecer no Natal

18 dezembro, 2017


Na Islândia é tradição oferecer-se um livro pelo Natal. Em Portugal não, o que é uma pena. Alheia a isso gosto de dar e receber livros em qualquer altura do ano e no Natal não é excepção. Estou a ler o mesmo livro desde que o Eusébio nasceu, porque ora divido o meu tempo a fazer outras coisas, porque o livro é grande, porque não tenho a capacidade de ler na diagonal como o nosso Presidente da República, porque pronto. No entanto, peguei nalguns que estão na minha wishlist e outros que já li para sugerir uma lista de presentes literários catitas para oferecer a cada membro da vossa família natalícia.

Para a tia solteirona- Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez. Too obvious? Se calhar não porque, com este livro, percebemos como a solidão é parte intrínseca da nossa experiência enquanto seres-humanos. O chamado faz parte, e não é só para os solteiros. Cem Anos de Solidão apresenta-nos uma família ao longo de gerações, perdida numa vila da América Latina, perdida no fim do mundo. São muitas histórias e muitas intrigas, daquelas que surgem das entranhas do surreal. Marquez é um mestre no realismo-fantástico se é que este termo existe. Tudo acontece, nada acontece e volta e meia a solidão chega para reinar. A solidão da mãe. Do homem que enlouquece de tanta sabedoria. Do viajante. Da adolescente violada pela mágoa. Da prostituta. Da empregada. A solidão do Poder e a falta dele. “O amor é uma aberração num lugar onde tudo se consome na saliva e no sémen”.

Para aquele amigo que adora ter sempre razão - We are the Change We Seek, the Speeches of Barack Obama. Ainda não li mas já mandei vir do Book Depository - melhor site de sempre para comprar livros. São baratos e não pagas portes. Na faculdade aprendi técnicas de discurso e adorei, é impressionante perceber como poder da oratória pode mudar o mundo. Quem não tem esse poder só nos dá dores de cabeça, basta ler as caixas de comentários da Internet. São só palavras mas fazem aquele doer desnecessário. Barack Obama é para mim um dos melhores oradores da atualidade e o teu amigo vai gostar de ler. Há lá melhor maneira de defender um argumento do que citando discursos de quem sabe andar nisto?

Para o irmão que só lê os posts do Azar do Kralj - Um crime no Expresso do Oriente, Agatha Christie. Ler intrigas futebolísticas no facebook ou ler uma boa intriga de Agatha Christie pode ser muito idêntico. Não vale ver o filme antes de ler o livro, ok? Este é talvez o caso mais famoso do detetive Poirot, personagem criado pela autora. O Expresso do Oriente é um comboio de luxo que vai terminar a sua viagem com um passageiro a menos. Um crime cometido durante a viagem que lança a suspeita sobre todos aqueles que viajam naquele comboio. Mas o homem até merecia ser morto, dizem uns. Mas apunhalá-lo até à morte talvez tenha sido demais, dizem outros. Um bocadinho ao estilo dos comentários depois de um derby onde horas depois todos julgam ter sido os responsáveis por encontrar o culpado. Poirot vai tratar disso.

Para a avó que faz os melhores doces de Natal - Comer e Beber com Eça de Queiroz, Beatriz Berrini e Maria de Lurdes Modesto. A tua avó já é a maior. Sabe fazer doces, cozidos, guisados… não vale a pena oferecer-lhe livros para principiantes. Vamos ser originais e misturar literatura com culinária. A comida que Eça de Queiroz descreve nas suas obras, foi gentilmente adaptada por Maria de Lurdes Modesto que criou as receitas com base nessas descrições. Sempre acreditei que juntar livros e comida à mesma mesa só podia dar boa coisa. Se nos livros vier Eça e na comida as mãozinhas da tua avó, prepara-te para refeições de sonho.

Para aquela prima com a mania da perseguição - Qualquer policial sueco lhe serviria o propósito mas escolho Solar de Ian McEwan. As alterações climáticas são apenas uma boa desculpa para Ian McEwan começar a dissertar sobre as dificuldades que as pessoas têm em relacionar-se, especialmente os relacionamentos entre marido e mulher. O protagonista, Michael Beard, é prémio Nobel da Física e sofre com a ausência de amor, buscando a sua vingança em casos extraconjugais. Transforma-se facilmente num anti-herói caricato e moderno com características detestáveis. Trai cinco esposas e inúmeras namoradas, assassina por ciúme, envia um inocente para a prisão, rouba os planos de outro cientista para impedir o aquecimento global e tenta transformá-los numa máquina de fazer dinheiro. Beard encarna assim tudo o que originalmente causou a crise da mudança climática: ganância, negligência e uma recusa teimosa em refletir sobre as consequências ou o futuro. O pano de fundo científico é apenas um pretexto para um livro altamente satírico e claustorfóbico porque nos obriga a ver o mundo do ponto de vista execrável do protagonista. Donald Trump, are you there?

Para o pai que já leu tudo e mais alguma coisa - Os Despojos do Dia, Kazuo Ishiguru. Para o pai, sempre o melhor. Se no ano passado Bob Dylan se transformou no primeiro Nobel que podíamos ouvir muito mais do que ler, este ano Kazuo Ishiguro leva-nos de volta às escolhas tradicionais da Academia Sueca. Um autor com queda para o Romance, que nos faz refletir sobre aquilo que andamos cá a fazer. Os Despojos do Dia é o primeiro livro do autor, lançado em 1989, vencedor de um Booker Prize e adaptado ao cinema. É sempre agradável começar pelo início.