Kurt Vonnegut - Matadouro 5

Review

27 março, 2017


Tenho um amigo que diz que só vale a pena criticar alguma coisa quando essa coisa é tremendamente boa, tremendamente má ou quando trai as nossas expectativas. No caso desta, acho que escolho a última hipótese. Não li (ainda!) o Pequeno-Almoço de Campeões, supostamente o melhor livro de Vonnegut, mas achei que ia gostar mais deste Matadouro.

E é assim é a frase que sentencia toda a narrativa. Prevê tragédia, tristeza e morte. É assim porque tem de ser e o ser humano enlouquece se questionar porquê. Resumindo, a vida acontece e não há muito que possamos fazer em relação a isso, a não ser tentar aproveitar aqueles que são os bons momentos. Segundo o autor, o destino faz-se sem nós. Essa ideia de que temos influência no que nos acontece só existe mesmo na nossa cabeça. São as emoções, o que sentimos em relação aos acontecimentos que ditam a importância dos mesmos. Será?

(CONTÉM SPOILERS!)

Matadouro 5 é sobre um homem chamado Billy Pilgrim que viaja no tempo. Serviu na Segunda Guerra Mundial onde foi capturado e enviado para a cidade de Desden, antes desta ser bombardeada. Billy é optometrista e sofre um esgotamento nervoso. Casou com a filha feia de um optometrista rico e também ele enriqueceu. Foi abduzido por extraterrestres, os trafalmadorianos, que o põe num jardim zoológico a fazer par com uma atriz pornográfica muito conhecida da época. Billy passou ainda por um acidente de avião de onde só saíram dois sobreviventes: o co-piloto e ele próprio. Enquanto está inconsciente a sua mulher morre num acidente de carro a caminho do hospital. Billy conhece ainda o seu autor favorito, Kilgore Trout, um escritor de ficção científica sem sucesso algum. Matadouro 5 é o nome do edifício onde colocam todos os soldados americanos que vivem em Dresden.

(ACABARAM OS SPOILERS)

A narrativa não segue esta linha reta e vai revisitando aos poucos cada um dos acontecimentos. Excluindo a filosofia por detrás do que é afinal a morte e o tempo, tudo o resto me parece uma ficção inacabada e perdida no meio da escrita non-sense do próprio autor. Achei mesmo que ia ler um romance de guerra mas acabei dentro da mente afligida de um lunático, ou então a minha parca experiência de vida fez com que não consiga ver este livro muito para além disso.

Percebo e aceito, no entanto, a referência de que toda a gente se encontra a meio de alguma coisa, como se esta vida fosse um compasso de espera para algo maior, melhor, ou simplesmente diferente. Somos como palhaços a entreter-nos uns aos outros, sempre à espera que alguma ovelha do rebanho tome a iniciativa para que depois a possamos imitar. E é assim

Melhor citação do livro:

A coisa mais importante que aprendi em Tralfamadore foi que, quando uma pessoa morre, só parece ter morrido. Continua bem viva no passado, pelo que é um disparate as pessoas chorarem no seu funeral. Todos os instantes, passados, presentes e futuros, existiram desde sempre, existirão para sempre. (...) Não passa de uma ilusão, a ideia que nós temos aqui na Terra de que um momento se segue a outro, como contas num fio, e de que, uma vez passado um instante, fica perdido para sempre.