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Educação Siberiana | Kaputo Camionista e Eusébio

24 junho, 2017


Olá Mojos! São tantos os livros que leio que seria uma pena não vos falar deles. Todos os fins-de-semana vou passar-vos as minhas sugestões. É possível que raramente me leiam a dizer muito mal de um livro porque, por norma, encontro sempre um motivo para gostar dele. Ou isso ou escolho realmente muito bem😜

Educação Siberiana de Nicolai Lilin  ⭐⭐⭐

389 pág. Editora: Alfaguara

 

Que livro surpreendente! Não o tivesse eu lido e pouco ou nada saberia sobre a Rússia Siberiana. As regras, a ética, a estrutura social e, no fim de contas, o valor da vida. É, afinal, possível uma sociedade viver tremendamente bem organizada mesmo que a criminalidade seja o seu eixo central. É possível encontrar valores morais no meio de corpos assassinados.

O que mais me agradava naquele ambiente, por mais violento e brutal que pudesse ser, é que não havia lugar para enganos e mentiras, cenas e palhaçadas: era absolutamente verdadeiro e involuntariamente profundo (...) as pessoas eram verdadeiramente humanas.

Um livro violento contado na primeira pessoa. Apesar de Nicolai ser uma criança durante a grande parte da narrativa transcreve na perfeição os horrores e as injustiças do sistema instituído. A honra criminal estabelece a lei e a ordem dentro de uma sociedade vazia de tudo o resto. A violência é a resposta para todos os problemas e só os “criminosos honestos” poderão ser respeitados. Matar, sim, mas com honra e morrer da mesma forma. Recentemente o autor admitiu que muito do que conta neste e noutros livros é ficcionado mas ainda assim tudo é descrito de uma forma assustadoramente real.

O Kaputo camionista e Eusébio de Manuel Rui ⭐⭐⭐

120 pág. Editora: Guerra e Paz

Dei de caras com este livro na FNAC e apaixonei-me pela capa. Às vezes acontece. Quando Eusébio morreu lembro-me que vi pela primeira vez o jogo Portugal - Coreia do início ao fim e foram 90 minutos de fascínio. Confrontei-me com as diferenças do futebol da época e emocionei-me com a energia vinda de uma tela a preto e branco, e 50 anos de delay.

(...) por isso é que folga tudo, até o Eusébio e companhia, negralhada de Moçambique, o Coluna e o Vicente, idem, folgam, não têm sangue português, se fosse como na África do Sul, brancos para um lado e pretos para outro, era outro assunto, vê como os gajos estão desenvolvidos, nós com o Salazar, um homem poupado que manda vir o comer da aldeia, e depois agora com o dinheiro do petróleo e dos diamantes que vai daqui é só para comprar armas para as frentes da Guiné, Moçambique e de Angola,não é pouca tripa, os administradores continuam a vender pretos aos fazendeiros do café, os governadores são a merda que sabemos e um dia destes os pretos põe-nos daqui para fora.

Este livro de Manuel Rui é um conto. A história começa quando nas estradas do Lubango, na ainda portuguesa Angola, Tó-Tó apanha boleia de um camionista no dia do Portugal - Coreia. Pelo caminho, Botija, o Kaputo* camionista, dispara opiniões. Sobre o Estado português, as colónias, os pretos, Salazar, o Benfica e claro a importância de Eusébio. A acompanhar o conto aficcionado, que por si já nos dá tanto sobre aquele tempo, estão relatos de outros que, por coincidência histórica ou algo mais, viveram e presenciaram essa mesma época e esse Eusébio. Um grande livro não precisa de ser um livro grande e as 120 páginas desta Kaputo camionista são suficientes para nos fazer emergir naquela tarde de 1966.

*Kaputo - Branco, oriundo de Portugal