Série: The Handmaid's Tale

Review

14 novembro, 2017


A maioria da população feminina é estéril e todas as mulheres que ainda são férteis vão começar a ter os filhos que as outras não podem. Parece uma premissa pobre e pouco interessante para uma série mas há toda uma crueldade e sadismo gigantes por detrás da construção desta distopia. Quem lê um livro tem por hábito gostar um bocadinho menos da sua adaptação para o cinema ( ou para a televisão) mas não é isso que tenho lido a respeito de The Handmaid’s Tale.  Inspirada no romance ficcional de Margaret Atwood, de 1985 a série ganhou o meu coração e fez-me passar à frente a parte do livro. Não me arrependo. Vou dizer que é brutal. Não aquele brutal de “awesome e cenas” que tanto usamos quando queremos dizer que uma coisa é tudo e nos faltam adjetivos mais pomposos, mas o brutal de uma brutalidade crua e imensa de um mundo que não existe mas e se existisse? Como seria? A história é uma fantasia mas inquietante de tão plausível. The Handmaid’s Tale mostra-nos esse mundo depois de já não haver nada a fazer, depois do Homem já quase se ter destruído. Tudo isto misturado com o look retro das personagens, porque quando se fala de sobrevivência da espécie a moda já não é um interesse. Nem a literatura. Nem qualquer tipo de entretenimento. Nem sequer o prazer ou o amor. Importa que os pomares continuem a dar bons frutos e que as (poucas) mulheres férteis continuem a submeter-se a uma violação consentida para poderem ter filhos que nunca serão delas. E tudo em nome de Deus e feito como nos ensinam as Escrituras.

Ao longo de 10 episódios acompanhamos de perto a vida de Offred, uma dessas “handmaids” (servas) capazes de conceber. Offred vive em casa de um Comandante, membro do governo,  e tenta a todo o custo não sucumbir à loucura desta Nova Ordem que se vive nos Estados Unidos, agora República de Gillead. Mas a mensagem de Handmaid’s Tale tem tanto de feminista como de perigosa. O que nos chega através do ecrã obriga-nos a repensar o papel da mulher neste mundo atual. O papel secundário em relação ao homem nas mais diversas áreas da sociedade, o consentimento em perder o controlo do seu próprio corpo, e até o facto de perderem o seu nome para adotarem o nome dos Comandantes que estão, lá está, a servir. Estaremos assim tão distantes da mensagem que Margaret Atwood nos quer passar nesta história? Infelizmente não estamos. Não em certas sociedades. Porém estamos alerta e mesmo que digam que o entretenimento não ensina, não se pode negar a força que tem em fazer-nos refletir.

A segunda temporada estreia em 2018, diz-se que por alturas da primavera. Espera-se a revolta neste segundo ato, onde as mulheres perdem finalmente o medo e percebem que só unidas vão conseguir derrotar o sistema. Ou pelo menos, é isso que eu imagino que vai acontecer. Isso e como vivem os outros países neste mundo estéril e contaminado. Que soluções há para uma humanidade que chegou a este ponto? Veremos.