Aos domingos há missa e carrinhas de caixa aberta

09 setembro, 2016


O Arlindo trouxe-nos o pão, uma espécie de carcaça com uma côdea mais saborosa. Foi o Francisco quem lhe abriu a porta, por volta das 6 da manhã, já o sol ia alto. Não temos persianas nas janelas nem nada que impeça a luz natural de entrar, então acordamos com o sol e isso sabe bem. Provei o pão mas fiz na mesma as papas de aveia e adicionei frutos secos, só naquela.

Hoje é domingo, dia de missa e vamos ser apresentados à população na igreja. Já se vêem as mulheres a passar na rua todas bonitas, de vestido e cabelo bem entrançado. Nós vamos à moda europeia, com a t-shirt da associação e calças de ganga. São 10 da manhã e numa conversa rápida ainda na sacristia percebemos que o padre é colombiano e vai ficar pela Ilha durante muitos anos, “se Deus quiser”. Durante a celebração vai contando piadas e toda a gente ouve com atenção na tentativa de perceber todo o portunhol que para ali vai. Na missa estão mais mulheres do que homens - esses estiveram presentes maioritariamente na primeira missa do dia - e as crianças são mais de 50, os bebés ao colo das mães e as maiorzinhas a ocupar os bancos das primeiras filas.  Os cânticos são alegres e duram muitos minutos mas a verdade é que quando acabou nem senti que já tivessem passado duas horas. No final de cada missa, canta-se os parabéns aos aniversariantes do dia e nós, voluntários da Sonha, Faz e Acontece, subimos ao altar para anunciar as atividades previstas para essa semana. Numa ilha com cerca de 7 mil habitantes e onde o boca-a-boca constitui o melhor veículo de comunicação, escusado será dizer que após o final desta missa, já toda a gente nos conhecia e sabia o que estávamos ali a fazer.

Hoje também é dia de comício e não há ninguém na cidade de Santo António que não apoie publicamente um candidato. A toda a hora passam carrinhas de caixa aberta com lotação esgotada onde se ouvem as músicas dos candidatos, autênticos hinos que ficam na cabeça à primeira: “Maria das Neveeeees, Maria da esperança renovadaaaa”. As eleições para eleger o novo presidente de São Tomé e Príncipe são já no dia 17 de Julho e, graças a isso, teremos que adiar a atividade do Campo de Férias, pois vamos precisar de muitos voluntários locais como monitores e eles agora andam ocupados a dançar em cima das carrinhas. Não sei se por ser domingo, mas a Bia, que já esteve cá em missão no ano passado, levou-nos a um dos restaurantes mais caros da Ilha, o Rosa Pão. Foram 880 mil dobras, cerca de 36 euros a dividir por 5, mas a comida estava ótima.

Na nossa casa, pintada de azul e branco temos um quadrado de relva. Conseguimos adivinhar que raramente é tratada mas esta terra é mágica e a humidade faz com que o verde natural se mantenha sempre impecável. É neste quadrado que recebemos todos os dias os miúdos da rua. Eles adoram mexer-me no cabelo e nas tatuagens, perguntam sempre qual doeu mais e o que significam. Na Ilha do Príncipe não se fazem tatuagens mas, tal como no papel ou na parede, estas crianças adoram fazer desenhos no corpo com as canetas e, no futuro, se viajarem até São Tomé ou Portugal é bem possível que arranjem maneira de pintar permanentemente o corpo.

Entretanto o Nini passa a vida cá em casa e já nos trouxe uma mega coluna para podermos ouvir música em altos berros a toda a hora. Sim, podem faltar notas para trocos todos os dias nos restaurantes, mas as notas musicais são para todos, e são de graça, sempre.