As crianças do Príncipe são iguais às outras

07 outubro, 2016


Ao fim da primeira semana na Ilha já tínhamos vivido o suficiente para perceber que, mais cedo ou mais tarde, com mais ou menos engenho, as coisas acabam por acontecer. Assim, num  dia em que as negociações com a Rádio Regional ainda não estavam fechadas dedicámo-nos totalmente às crianças. São mais que as mães e são mais de dez as que todos os dias vêm brincar para o nosso quadradinho de relva, a tal que nasce e cresce sem precisar de ajuda. Quando voltámos da Rádio queriam brincar ao “Macaquinho do Chinês” e à “Apanhada”. Também brincámos ao “Passarrê, passarrê”, uma espécie de “Linda falua”, em Portugal. Como já tínhamos cumprido todos os compromissos do dia, aventurámo-nos para a zona das praias logo a seguir ao almoço. Os miúdos quiseram ir connosco, claro e, numa viagem que por cá não dispensaria a autorização dos pais, lá fez-se sem esse pedido. Foram connosco, o Joel, o Jordão, o Tércio ( que andámos o mês inteiro a chamar Técio até percebermos que o nome tinha o “r”), o Daniel e o Jeremias, meninos de 7,8 anos com a personalidade vincada e uma vontade imensa de contar tudo o que sabem sobre as árvores de fruto e as canções que aprendem na escola. A praia ainda está a uns bons dois quilómetros da cidade mas a meio do caminho que fizemos a pé, sem reclamar, apanhámos boleia numa carrinha de caixa aberta.

A praia Évora, com maré cheia, estava demasiado perigosa para enfiar estes cinco miúdos no mar, então fomos a pé até Ponta Mina. Com uma língua pequenina de areia e a água a vinte e tal graus, lá mergulhámos, com eles todos nus e felizes. Eu sorria e tinha vontade de chorar tal foi o impacto desse momento. Vi ali a mais pura felicidade. A deles e a nossa. Era capaz de jurar que nunca nenhum adulto brincou com eles assim, seja por falta de tempo, de tato ou de algo mais. Foram saltos intermináveis para a água e risos dobrados durante toda a tarde. Voltámos cansados, de mão dada e coração cheio. O Francisco e o Miguel ainda trouxeram alguns deles ao colo. Os meus meninos.

Os meus meninos que não são meus coisa nenhuma. Os meus meninos não são meus e ainda bem. Uma das muitas perguntas que me fizeram quando voltei da ilha foi: “E as crianças, Filipa? Querias trazê-los a todos, não querias?”. Na verdade, não sei. Na verdade, não queria, não. O facto de ter passado tanto tempo com estes miúdos e de gostar e querer o melhor para cada um deles, não me tolda a visão que tenho da realidade do Príncipe. Eu vi o que eles têm lá. Têm sempre alguma família a olhar por eles, têm irmãos, primos, amigos com quem brincar, têm uma ilha inteira para explorar em segurança. Há muita coisa que falta e que nós podemos ajudar a colmatar mas não podemos ser egoístas ao ponto de achar que temos que os trazer para cá, amá-los cá e pensar que cá, connosco, seriam mais felizes. Mas o mais bonito, sabem o que é? Eles virão um dia. Eles vêm formar-se, tirar cursos, conhecer coisas novas, e sempre com o genuíno intuito de voltar para lá, de aplicar lá esse conhecimento, de acrescentar valor na sua Ilha, na sua casa. Porque aquela é a casa deles e eles não querem sair. É aquela vontade de não ficar longe dos seus. Por muito que aprendam connosco, por muitas coisas novas que conheçam, querem sempre regressar tal e qual como nós quando lá vamos. Era capaz de jurar que em qualquer cantinho do mundo, as crianças viram adultos que só querem ser felizes junto daqueles que mais amam, e de preferência todos na mesma casa.