Isso de fazer voluntariado em África

Histórias de um mês passado na Ilha do Príncipe

01 setembro, 2016


Duro e incrível são os dois adjetivos que uso sempre que me perguntam como foi passar um mês na Ilha do Príncipe a fazer voluntariado. Também digo que só ganhei coisas boas e a única que perdi foi massa muscular. Tudo verdades que não contam nem metade da história. Já voltei há um mês e nunca consigo contar tudo o que vivi. Há experiências difíceis de verbalizar e outras que só quero guardar para mim mas todas elas, sem exceção, contribuíram para que ganhasse uma nova percepção em relação àquilo que é o mundo fora do meu quintal.

Assim que aterrei no verde denso da ilha percebi que as histórias do Projeto que ouvira ao longo de cinco anos nunca mais seriam só dos outros. Agora já sei como é subir ao Pico Papagaio, ir à missa das 6 da manhã todos os domingos, organizar um campo de férias para 80 crianças com hábitos que não conhecia, reabilitar uma biblioteca no meio de uma das comunidades mais pobres da Ilha ou aprender a dançar kizomba como manda a lei. O projeto é feito por pessoas e para pessoas e esta experiência nunca será unilateral ou considerada como trabalho, por isso não estranhem se a minha escrita parecer resvalar para o lado mais emocional.

O meu caderno laranja, edição exclusiva Sonha, Faz e Acontece. A capa foi desenhada por uma criança do Príncipe, no Projeto de há dois anos

Um dos meninos da Roça de Porto Real que nos ajudou na limpeza da sala de professores/biblioteca. A estrutura que equilibrava o globo estava partida, mas com duas mãos e boa vontade a coisa arranjou-se.

Ao longo do mês fui escrevendo os meus dias num caderno A6 e são essas as histórias que tenciono ir contando por aqui, na secção Filipa no Príncipe. Levantávamo-nos sempre por volta das 6h30 ( aos Domingos, mais cedo) e na tentativa de não emagrecer fazia papas de aveia para o pequeno-almoço. Consegui…mas nem sempre. Comer pão com manteiga era mais rápido e, verdade seja dita, não levei um carregamento de aveia que durasse um mês. Por vezes conseguia sentar-me logo a escrever, mas outras alturas houve em que o fazia já de madrugada, com meio olho aberto e a apontar apenas alguns tópicos, na esperança de não me esquecer de nada. A verdade é que na maioria dos dias sempre que algum dos voluntários portugueses estava em casa, nunca estava sozinho. Os miúdos da rua queriam a bola para jogar, ou a corda para saltar, ou uma folha de papel para desenhar, mas queriam, acima de tudo, a nossa companhia e ficava difícil dizer que não.

Posso dizer-vos que independentemente das histórias que vivam numa experiência de voluntariado fora do vosso quintal - que não precisa de ser em África, obviamente - o que se ganha não tem preço e leva-se para a vida. Ao criar valor numa comunidade, estão também a absorver novas competências, a ganhar novos amigos e a proteger a vossa saúde mental que, neste mundo de pressas constantes, fica difícil de conseguir.

A Maria, o Miguel, o Francisco, a Beatriz e eu. Juntos constituímos a equipa de julho do Projeto Príncipe 2016. Esta fotografia foi tirada na Roça da Sundy, no mesmo sítio onde ficou provada a teoria da relatividade de Albert Einstein.