Criar ou Educar: o que é mais importante?*

25 julho, 2019


Entrámos no consultório do Dr. Pedro e ele disse logo: “Bom, a partir daqui é convosco. Eu já ajudei a criar, mas não o posso educar”. Estávamos na consulta dos 9 meses e entendemos bem a mensagem. O Eusébio já era uma pessoa e a nossa missão enquanto pais já estava agora muito para lá da manutenção da sobrevivência do bebé.

Criar é tomar conta mas as exigências de uma educação são bem mais complexas e começam logo pela questão do exemplo - o nosso, de preferência. Se queremos educar bem os nossos filhos, então temos que nos preparar para lhes dar os melhores exemplos. Transpiro das mãos sempre que penso nisto e em todas as coisas em que sei que não sou propriamente o melhor exemplo do mercado mas tento não vacilar. Já percebi que o desafio da paternidade é mesmo esse, eu a tentar ser melhor pessoa, para que o bebé também o seja. Mais um bocadinho de transpiração porque afinal educar até é cuidar, mas com um curso superior em valores e limites, e isso parece-me uma licenciatura daquelas difíceis de tirar.

Nem sempre sabemos por onde começar uma coisa nova e a educação de um filho não será excepção. Educar não é tomar conta, como já nos disse o Pediatra. Educar também não é proteger porque é preciso errar e aprender a lidar com as próprias falhas e frustrações. Acredito que educar seja dar autonomia, um bocadinho como os animais fazem com as suas crias. Uma criança independente tem maior probabilidade de ser feliz com as suas escolhas. Vai magoar-se? Vai. Vai chorar? Vai. Vai odiar os pais por terem feito isto ou aquilo? Vai. Mas, pelo menos, vão estar preparados para viver a vida à sua maneira. Vou ficar chateada quando ele não quiser estar sempre debaixo da minha asa? Vou. Mas tenho de entender que, mais do que meu filho, ele é uma pessoa, com os seus defeitos, dificuldades e atributos únicos e eu só quero poder dizer que lhe dei as ferramentas todas, mas que foi ele que construiu a sua própria felicidade. Comigo sempre por perto, de preferência.

Contava-me noutro dia uma amiga minha que as escolas vão passar a ensinar a andar de bicicleta. A sério? - pensei - a nossa sociedade já está no ponto em que nem os pais têm tempo para ensinar os filhos a andar de bicicleta? Tenho pena que, enquanto pais, vivamos tão freneticamente entre os nossos empregos, compromissos sociais, tarefas domésticas, ou o que seja, que negligenciemos aos nossos próprios filhos o ensino de práticas como a de pedalar. Acima de tudo, tenho pena que a escola ensine aquilo que qualquer pai está apto a ensinar. Agora que sou mãe começo a perceber a catrefada de atividades que preenchem as agendas das crianças de manhã à noite, quase todas elas ensinadas por alguém que não os pais. E pena é mesmo a única coisa que posso ter, já que não consigo mudar o sistema. Mas posso tentar, mais uma vez, dar o meu melhor exemplo e isso talvez implique sacrificar a minha agenda de pessoa adulta que vive o dia a queixar-se do trabalho a mais e do dinheiro a menos. Nenhum dos dois me vai compensar o tempo que não passo a educar o meu filho, pois não? Claro que já estou a transpirar das mãos outra vez com esta reflexão, mas no fundo é tudo uma questão de tempo. Porque nem os nossos filhos são máquinas que aprendem tudo à primeira, nem nós podemos achar que o beijinho de boa noite é suficiente nisto de educar uma criança.

*(Crónica publicada na revista Miúdos & Graúdos, edição de maio)